quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Confissões noturnas



- Não vai embora, fica aqui comigo
- Você tem certeza?
- Tenho, fica aqui, pertinho de mim...
- Mas amanhã você vai ter mudado de idéia
- Amanhã é amanhã, fica... Não vou deixar você sair, tá tarde... A chuva tá forte lá fora... Você não vai embora nessa chuva
- Não se preocupa, não tenho problemas em dirigir na chuva... Nem à noite...
- Eu sei, eu sei... Tudo bem, mas fica comigo... Deita aqui no meu peito... Vem cá... Tá ouvindo... Ouve... O barulho da chuva caindo na janela... A força das gotas fazendo o vidro cantar...
- Eu deito, eu fico, mas e depois?
- Esquece o depois... Me dá um beijo... Vamos passar a noite ouvindo a chuva, juntos, conversando...
- Eu... é difícil... Seu cheiro... me persegue por todos os lugares... Fico aqui com você agora e vou passar semanas sentindo o seu cheiro na rua, no meu travesseiro antes de dormir... Caindo nas armadilhas sinestésicas da minha memória...
- Esquece... vem cá... Eu preciso de você... Fica comigo, não me deixa aqui...
-  Você sabe o que eu sinto, não sabe...
- Sei... mas.. o que você quer de mim? O que você quer que eu faça?
- É isso o que você não entende, eu não quero nada... Só ficar com você... de verdade... Não só em momentos como este... Não com medo do que vai acontecer amanhã...
- Calma, tem paciência... As coisas acontecem cada uma a seu momento... Naturalmente...
- Mas... eu não consigo... eu sei o que eu quero... respeito seu tempo... sua necessidade de distância, de isolamento, mas o que eu faço com essa vontade que eu tenho de você...
-  Calma... teremos os nossos momentos, e serão naturais, intensos e verdadeiros... Nossa história não acaba aqui... Ainda temos muito o que viver juntos...
- Eu sei, acho...
- Para de pensar, para de racionalizar, até quando você fala de sentimentos fala de maneira tão definitiva... A vida não é assim tão maniqueísta...
- Tá bom, tá bom... Esquece... Vamos viver o agora...
- Já te disse... Fica aqui comigo... eu gosto de estar com você, me sinto bem... Preciso organizar minha vida... Colocar tudo no lugar, mas por hoje só quero ouvir com você o barulho da chuva...
- Eu também...
- Então fica...
- Fico... não vou te deixar... Só não esquece o quanto eu te quero...
- Shiiiii... Ouve... sente...
- Sinto... esse perfume que não vai sair da minha cabeça...
- ...
- Só espero saber lidar com o depois...
- Shiiiii....


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O eu e o outro...

A pouco mais de uma semana conversava com um amigo sobre as diferentes formas de se encarar as relações humanas, como as pessoas criam diferentes expectativas a respeito de retribuição e reciprocidade ao permitir-se conhecer e ser conhecido pelo outro e, em meio a risos incrédulos dele citei O pequeno príncipe. Sei que não é a citação mais original, mas aconteceu de maneira tão natural que não pude evitar, o fato é que esse livro forma parte de um contexto muito significativo de minha vida em que uma das amizades mais importantes e intensas que tenho foi colocada à prova. Ainda assim, na citação não estava me referindo ao cuidado que o livro propõe, menos ainda ao convite para olhar de outra forma o mundo ao redor, me referia sim a conhecida frase “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.
Essa frase me remete a um significado muito forte, ao peso que nossas decisões têm no outro, que nossas ações geram nas pequenas felicidades daqueles em que na vida assumimos o papel de coadjuvantes, e principalmente, o quanto podemos controlar tudo isso... O quanto podemos interferir em tudo isso...
Poucos dias depois assisti ao filme Na natureza selvagem, e ainda que meu espírito de viajante tenha sido fortemente aguçado não consegui não pensar no outro lado daquela história. Enquanto mergulhava na coragem, no espírito libertário daquele “super andarilho” pensava naqueles que ficaram, que foram coadjuvantes na história do personagem, que não fugiram do massacrante ritmo da vida moderna e agüentaram as dores das perdas diárias, o esfacelamento gradual de nossas almas no cotidiano.
Compreendo muito facilmente a necessidade do personagem de se descobrir e descobrir o mundo, de se permitir viver sem amarras, fugindo da racionalidade e experimentando intensamente as alegrias que não são proporcionadas pelas relações humanas, mas e o outro? E aquele que fica?
Como se priorizar sem magoar ao outro? E mais, como viver plenamente uma experiência sabendo que alguém sofre devido às suas escolhas? É aí que, mais uma vez, entra O pequeno príncipe, se sou responsável por aquele que cativo, se para ser alguém pleno preciso fazer um constante exercício de alteridade, qual será a medida entre o eu e o outro nesse jogo das relações humanas?
Somos seres sociais, precisamos desse jogo para dar sentido a essa angústia interminável que sentimos, a esse constante desejo de busca, de renovação, de preencher uma lacuna interna que não sabemos ao certo o que é. São as novas experiências que norteiam a nossa existência, mas e o que fica? E o que afetamos? Não há, afinal, um meio termo pra tudo isso? Uma solução bem libriana para essa brincadeira de gente grande?
Essa é a minha atual busca...

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O fim de uma viagem é o início de outra...


Os mais de 4.000 metros de altitude inicialmente refletiram em sua respiração, em seu cansaço, tornando duros os primeiros passos daquela caminhada a que se propusera. Subir a montanha com o sol forte e o vento gelado gerava em seu corpo e em sua mente sensações antitéticas... Contraditórias... Mas ela sabia que deveria continuar, que aquela experiência valeria a pena ser narrada, recontada em outros tantos momentos.
Pé ante pé colocou a vontade acima do cansaço e continuou a andar, a luz do sol refletindo no lago parecia cegar a visão que poderia ter do horizonte, mas tudo bem, olhar o imediato parecia mais interessante do que tentar prever o que lhe aguardava no caminho.
Sabia de toda a história que cercava aquela montanha, de todo o contexto cosmológico traçado nos escritos dos povos antigos que viveram naquela região, respeitava todas as crenças, mas relutava em aceitá-las de maneira racional... A racionalidade era algo que sempre determinara o tom de suas escolhas e suas relações e acreditar que um lugar pudesse carregar uma energia capaz de curar e libertar a alma de um indivíduo era um pouco mais do que ela conseguiria aceitar.
Já fora tão difícil reconstruir suas próprias crenças, chegar a um consenso entre razão e emoção depois de tudo o que passara na “vida real”, depois de assistir a suas verdades, seus dogmas, suas razões, serem negados e repensados até conseguir se recompor e voltar a ser alguém, pleno em dúvidas e certezas. Aceitar agora que os ventos, as pedras, as plantas daquele lugar poderiam intervir em suas reflexões e escolhas lhe gerava mais pensamentos contraditórios do que libertadores.
Mas ela continuava... Aliás, não parara em momento algum, o ritmo de seus pensamentos era a trilha sonora daquele caminho que percorria. Sempre julgara interessante passar por experiências que lhe possibilitassem reflexões que talvez surgissem apenas em um outro momento da vida, mas a cada passo que dava percebia que essa experiência geraria pensamentos maiores do que alegorias de vida que se desdobrariam em conselhos para outras pessoas, em reconstruções de memórias revisitadas, revistas, corrigidas.
Depois de muitas terapias de bar, de muitas trocas entre amigos e estranhos aprendera que memória é sempre reconstrução, que revivemos experiências de nossa vida, focando aquilo que convém naquele momento, buscando nas nossas vivências explicações didáticas para erros e acertos, exemplos de caminhos a serem seguidos, ou não. Tentamos mudar os caminhos que escolhemos nas escolhas alheias, como se isso representasse a possibilidade de reviver a mesma história a partir de outro ângulo, outro lugar.
Finalmente chegara ao ponto central da caminhada, ao ponto mais alto daquela serra que lhe dava a visão mais ampla do lago e das ilhas ao redor e mesmo o lugar sendo tão bonito, repleto de ruínas e marcos históricos, não conseguia parar de olhar para fora, para o horizonte que vislumbrava.
E seu racionalismo fora pro espaço... Se desmaterializara com o suor daquela caminhada. Já não mais negava o que sentia, já não mais pensava e ponderava o que era certo ou errado sentir, ser... Cansara de ser, queria estar, queria viver aquela mutabilidade que as energias daquele lugar pareciam lhe convidar a experimentar. Se percebia como parte harmônica daquilo tudo, como uma poeira que formava parte das tantas outras poeiras, das tantas outras pedras, das tantas outras ruínas... Naquele momento era pequena, uma pequena parte de algo maior, naquele momento... Mas a visão de que ela poderia ser tantas coisas, fazer parte de tantos outros contextos finalmente lhe gerava a tal sensação de liberdade que tantas vezes ouvira e que acreditava fazer parte do campo da ficção.
E a racionalidade? E as certezas e seguranças? Pouco importava. Seguramente voltariam a sua cabeça no caminho de volta ao porto, bem como todos os questionamentos, angústias e inseguranças... Mas o imediato era o que importava, e depois ela poderia revisitar aquela memória, contar e recontar a partir do ângulo, do lugar, do personagem que melhor coubesse na situação. Lembrar é reinventar.

O vício pelas palavras...



"Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo."
                                                                                       Drummond


Seriam as palavras capazes de acalmar essa dor, essa angústia que sinto? Estaria nelas a saída, a fuga para esse turbilhão de ideias que aos poucos me corrói? Estaria nelas o alento para a ausência daquela sensação invasiva que vai e vem de minha memória?
Busco nas palavras a fuga que leve minha mente a uma sensação de êxtase outrora alcançada, escolho aleatoriamente poetas que me toquem, me tomem, me façam sentir aquilo que idealizo, que desejo, mas que nem sempre a vida permite concretizar.
Encontro nas frases, nas citações, nas metáforas e alegorias o refúgio para os sentimentos perturbadores que muitas vezes me consomem... Aguardo, espero, deixo as palavras me tocarem, me reconstruírem, faço de mim um texto em eterna composição...

domingo, 19 de fevereiro de 2012

O homem máquina - À Alvaro de Campos...




Luzes pontilhadas espalhadas pelo céu, encobertas de nuvens que não foram produzidas pela natureza. Abaixo, luzes vermelhas e brancas, enfileiradas, estacionadas. Dentro, pessoas, não vivas, existentes apenas, mecanicamente mudando à marcha de primeira para segunda, ouvindo músicas feitas por pessoas que diferentemente delas vivem. Estão fechados, com medo de quem está lá fora, com medo de quem está dentro. Se está sozinho, tem medo de quem?
Quando está lá, artificialmente conectado à máquina, se torna parte dela, e cada vez mais esquece daquilo que já compôs sua alma... Se há alma, ela seguramente não suporta mais esse ritmo, essa vida, já buscou um escape, uma saída para fazer de sua existência algo que valha a pena.
E se algo ficou, tornou-se uma massa torpe, inerte, moribunda, que aguarda a redenção do relógio e não se permite ir além. Mas há um jogo acontecendo... O que fazer então? 
Torne-se espectador... não participe!

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O amor do porquinho da índia...

  A primeira namorada de Manuel Bandeira foi um porquinho da índia, pelo menos era essa a interpretação que ela fazia de todo aquele sentimento que lhe doía toda vez que ele se escondia, desdenhava de seu amor. Fico imaginado a dor que ele sentia toda vez que o porquinho ia e voltava, fazia um carinho e logo se escondia, se refugiava nos cantinhos da casa e de vez em quando fazia uma ternurinha... Quando estamos apaixonados acabamos por aceitar esse tipo de relação, nos contentamos com raspas e restos, como já disse Cazuza, nos magoamos, mas relevamos perante a possibilidade de uma ternurinha a mais... Coragem mesmo é ser porquinho da índia e não se entregar as ternurinhas oferecidas... Amar de verdade aquele que se expõe e se mostra pra você é muitas vezes deixá-lo ir... Estar ou não estar de verdade. Sou covarde!!! Ana Terra se envergonharia de mim... Mas como é difícil negar as ternurinhas daquele que você ama, ainda que você saiba que isso seria o certo...



Porquinho-da-Índia
Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração eu tinha
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos, mais limpinhos,
Ele não se importava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas…
- O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.

Intertextualidade com Ainda é Cedo - Legião Urbana

A garganta fecha, e as palavras travam, não saem, fraquejam diante da minha dor. É uma dor física, indescritível, fruto do acúmulo de sentimentos que passaram a coexistir, se tolerar... A dor passa a refletir nas ações, que também se tornam confusas, obscuras, já não sei mais o que sou e o que quero ser. Tudo que parecia tão bem traçado, típico comercial de margarina, desmorona sem que eu consiga recolher os fragmentos. Que direito eu tenho de mudar os planos, de desconstruir aquilo que estava encaminhado para os próximos 60 anos? Olho ao redor, tudo tem a cara de uma outra vida, uma outra pessoa que sem saber como, se perdeu, se foi, vítima de repetidos momentos de prepotência e auto-suficiência. Quem disse que tudo está em minhas mãos? Por que seria eu quem determinaria o que deve ou não ser? A vida tem dessas, nos desestabiliza, cria momentos de tempestades... Tanta amargura na sua voz... Onde aquela doçura de adolescente apaixonado se perdeu? Onde ela ficou quando eu a apunhalei? Perdão...


O grito...




As partículas vão se juntando dentro de mim, como metonímias de sentimentos e sensações que tento, mas não posso reprimir. Meu corpo já não consegue mais camuflar, encenar, se rebela perante os movimentos rotineiros, cotidianos, contidos...
Desde o pé sinto essas partículas me percorrendo, como metal puxado por um grande imã no fundo da minha garganta. A dor é mais forte do que parece, a concentração dessas partículas leva minha pele a se dilatar, se esticar ao máximo... Torna-se insuportável...
Quando não há mais o que fazer o corpo padece à vontade da alma e se entrega a materialização de minhas angústias... Sinto-me liberta!!!

Um outro eu...

Sento-me no beiral da janela do meu quarto, essa paisagem me chama a atenção a anos, desde os tempos de adolescente quando aqui ainda era a casa dos meus tios, a diferença está na quantidade de prédios que vem se proliferando devido a especulação imobiliária, mas o que mais me chama a atenção é aquela árvore, sobrevivente, que permanece ali entre os prédios, frondosa, cheia de vida, dando um respiro àquele cenário de concreto.
Inclino-me à esquerda para ver o resquício de horizonte que os prédios ainda permitem, até quando, é uma incógnita. Trago meu cigarro, lentamente, esse é o meu momento,  aqui me encontro, me interiorizo, me permito simplesmente ser, sem saber ao certo o que. Olho pro telhado que fica a minha frente e vejo as milhares de bitucas de outros cigarros que um dia compuseram outros momentos assim.
Olho pra dentro do quarto e vejo meus óculos ao lado do notebook em cima da cama, ao redor os livros que embasam meus estudos sobre tudo aquilo que defendo, como se fosse um resquício das ideologias que ainda restam da minha adolescência e que teimo em mantê-las, é nelas que me faço homem, forte, altivo, é por elas que trilhei meu caminho...
Desço do beiral e caminho ao redor da cama, me desvisto da calça jeans e da camiseta como se me desvestisse também de tudo aquilo que preciso ser diariamente. Pai, marido, profissional respeitável, provedor de família, exemplo para as futuras gerações que ajudo a educar. Aqui não há cobranças, não há papéis sociais.
Fico nu, mesmo sabendo que as várias janelas dos prédios vizinhos formam diversos ângulos de espectadores para a minha nudez, mas já não me importo mais, a muito não me importo com o que os outros pensam, ou tento não me importar. Nado contra a correnteza social, e mesmo sabendo que diariamente sou influenciado por todo esse pensamento judaico cristão que nos oprime busco sobreviver. Já não sinto mais culpa, já não tenho mais medo do pecado.
Meus trinta e tantos anos me permitem analisar friamente minha trajetória de vida, minhas escolhas, minhas renúncias, minhas tentativas frustradas de um amor idealizado que já não acredito mais existir. A ignorância da juventude já me deixou, me fazendo perceber que a vida não é tão simples, tão maniqueísta, que as verdades não são tão óbvias e pré-estabelecidas. Hoje já não quero mais saber de verdades, de contratos sociais, quero me entregar a tudo aquilo que o momento permitir, viver intensamente os desejos e as vontades que se constroem à minha frente.
Deito na cama, olhando pro teto, deslizo minha mão pelo meu corpo, nesses momentos sinto um desejo incontrolável de uma outra mão fazendo isso, me sentindo, me tocando...Meu corpo suado me remete a outros tantos momentos já vividos nessa cama, outros momentos de entrega às vontades do corpo e dessa tal alma que temos mas não sabemos muito bem como. Me satisfaço, sozinho, com minhas lembranças e devaneios, tento não ater-me tanto ao passado, mas às vezes ele me pega e acabo por me entregar. Delicioso seria poder revivê-lo sempre, apenas as melhores recordações, as mais intensas.
Depois do gozo e do êxtase adormeço, entregue ao turbilhão de sensações que me compõem naquele instante. Horas depois me desperto, já restabelecido. As obrigações e responsabilidades voltam a minha mente, os mesmos livros e papéis ainda estão sobre a cama como uma metonímia de todas as tarefas que ainda tenho que fazer. Recolho meus óculos e os coloco outra vez, me torno o cotidiano Clark Kant e deixo de ser super homem, pra me entregar a vida real. 

O mundo começa agora, apenas começamos...

Dormira vencida pela exaustão, após uma noite de entrega aos jogos descritivos que tanto a encantavam e que fazia da literatura seu escape para outro mundo... As sensações que lhe acometiam a faziam ser outra, tornar-se outra, a permitiam ser mais bonita, mais densa e mais interessante do que realmente era, quando mergulhava naquelas sinestesias, metáforas e alegorias já não era mais um alguém medíocre, passava a ser tal qual qualquer grande personagem feminino da literatura universal.
Tinha um apresso particular às escritoras, àquelas que criavam mulheres tão contraditórias que seriam capazes de afirmar à sociedade dogmas que as enojavam e que renegariam antes de dormir, elas sim eram mais humanas do que muitas que não se permitiam questionar, eram mais reais, mais possíveis.
Aquela noite, porém, havia se entregado a um autor e não autora, excitara-se e instigara-se com uma porção de contos de um certo escritor uruguaio, dentre eles havia um que narrava a trajetória de um jovem que negava a existência de um outro eu que o compunha, mas não eram diversas faces de uma mesma personalidade, não era uma estratégia para o fingimento poético, o que mais a encantara era que aquele outro eu tomava vida, agia independentemente da ação do eu original.
Por fim dormira, cansada e vazia, sugada por aquele fragmento de personagem que por sentir demais desistira de viver. Pensando nas diversas possibilidades de seus outros eu permitiu-se adormecer, e já em estado profundo de sono pode ver-se, assistir a suas ações como uma espectadora em um cinema e se espantou ao perceber que não agia de maneira tão passiva como era comum quando acordada.
Despertou, devagar, sem sobressaltos, meia hora antes do despertador tocar. Abriu os olhos e se deu conta de que fora apenas um sonho, mas a possibilidade, o se que tanto incrementa a nossa existência a fez mais uma vez fechar os olhos. Respirou, pensou, “e se...” “Só hoje”, “apenas hoje”, “e se...”
Levantou-se abruptamente, ligou o rádio conectado ao seu I POD, selecionou Metal contra as Nuvens da Legião Urbana e cantou... Por nove minutos cantou cada verso gritando-os como uma promessa aos céus até o seu fim, e quando ouviu “o mundo começa agora” pausou a música e fez o mundo começar. Abriu o guarda-roupa e escolheu aquela peça ao fundo que certa vez comprara esperando a ocasião certa para estrear. Ela sabia o que tinha que fazer, sabia a quem deveria encontrar e onde fazê-lo.
No mesmo lugar de todos os dias foi encontrá-lo, não que ele realmente desse conta de sua presença, mas sabia que ele estaria lá. Um oi foi tudo o que se fez necessário, um oi que chamou a atenção dele para àquela que engasgava sempre antes de pronunciar essa palavra monossilábica.
Faziam parte de um mesmo espaço, pertenciam os dois àquele lugar, mas como todo alguém que quer passar despercebido ela não se permitia olhar em seus olhos, até aquele dia. O oi não foi uma simples saudação, o olhar trazia outros desdobramentos, um brilho diferente, como alguém que pede por atenção, como uma pergunta que exige uma resposta, uma mescla de imagens que naturalmente careciam de interpretações.
E ele, tão alheio a tudo aquilo, permitiu-se olhar. Não compreendeu ao certo o que representava, o que aquele olhar que buscava o seu queria dizer. Olhou-a profundamente buscando respostas e nessa tentativa acabou por perceber o quão bonita ela era. A simetria de seus traços até então não havia lhe chamado atenção, os olhos castanhos emoldurados por cílios compridos e pintados e a boca que ameaçava mover-se e não o fazia despertavam nele desejos até então nunca voltados para ela.
Ele queria conversar, ela também. Ela queria conhecê-lo além daquilo que a tanto tempo observava e criava em sua mente, ele queria entender como o brilho nos olhos dela poderia ter mudado de um dia pro outro.
Sentaram, sem convite de nenhuma das partes, os olhos não mais deixavam de se fitar, eles já haviam iniciado a conversa antes que as bocas percebessem. A curiosidade tomava seus pensamentos, tantas eram as perguntas sendo formuladas naquele momento, mas antes de qualquer uma delas eles, em comum acordo, estabelecido silenciosamente, se levantaram e partiram.
Foram até um lugar não muito distante do espaço comum, lá se entregaram a um sentimento não muito compreensível, mas que muito parecia com as exaltações noturnas que ela se entregava por conta da maestria de seus grandes autores. As palavras não faziam falta, aqueles corpos já se conheciam de algum lugar.
Os lábios dele sabiam exatamente onde percorrer, e como alguém que a muito não provava de seu doce preferido buscavam e desejavam cada parte daquele corpo a ser explorado. As mãos se encaixavam harmoniosamente, as mesmas mãos que conduziam aquele momento de descoberta, entrega, e por que não, diálogo. A linguagem dos corpos se fez mais sábia e madura, se adiantou a tudo aquilo que poderia ser dito e que não fariam daquele momento algo tão literário como estava sendo.
Um corpo se entregou ao outro, sem o pudor que seria natural a pessoas que nunca haviam se visto nuas e quando satisfeitos das vontades da carne buscaram mais uma vez o olhar.
Só então as palavras se fizeram presentes, e todas as perguntas outrora formuladas foram respondidas embaladas em um sentimento de cumplicidade que apenas amigos de anos poderiam ter.
Horas depois ela se vestiu, arrumou os cabelos, pegou sua bolsa jogada ao lado e o beijou, não disseram mais nada, apenas se separaram como se fossem se reencontrar dali a pouco. Ela voltou pra casa.
Lá tirou a roupa e a colocou mais uma vez no fundo do guarda-roupa, fechou o livro de Mário Benedetti que havia deixado aberto, desligou o rádio que ainda estava pausado na música da Legião Urbana, deitou e dormiu... Profundamente.
Acordou pensando em tudo o que havia acontecido no dia anterior, mas já não tinha mais força para manter aquele outro eu, mas o se... a possibilidade... Isso já era o suficiente. Agora ela sabia que poderia ser como as suas personagens prediletas, agora ela sabia que havia outra possibilidade de vida, de escolhas, de experiências e experimentações. E consciente de tudo que poderia ser se assim o quisesse foi ao guarda-roupa e pegou a mesma calça jeans e a mesma bata de sempre.
Naquele dia, no espaço comum ela, mais uma vez, encontrou com ele, que ainda entorpecido pela experiência da noite anterior buscou no olhar dela o mesmo diálogo e cumplicidade. Não encontrou... Não a encontrou naquele olhar... Hesitou, abaixou a cabeça, desviou o foco...
Mas, o mais importante já acontecera... Ela conhecera seu outro eu, ela se permitira ser outra, e ele sabia.